Escrito por Igor Vieira

Há quase cinquenta anos a comunidade global não se reunia com o foco de colocar água e tudo que transpassa este elemento em pauta numa conferência das Nações Unidas. Há um mês atrás, pessoas do mundo todo estavam reunidas em Nova Iorque para discutir, construir e direcionar passos para agilizar os processos de segurança hídrica em um mundo lidando com os resultados de uma pandemia global enquanto vive em emergência climática.

O maior resultado desta conferência pode ser lido como a Água de Ação da água, essa ferramenta, chamemos assim, contém centenas de compromissos firmados que relacionam não apenas as metas dos ODS, especialmente o 6, mas que se correlacionam com a agenda climática - oportuno já que água e clima são temas base que representam uma agenda só.

As metas, poderiam ser enraizadas e divididas em seis eixos de trabalho: Água para a Saúde, Água para o Desenvolvimento Sustentável, Água para o Clima, Resiliência e Meio Ambiente, Água para a Cooperação e Água para a Década Internacional da Água - denominados diálogos interativos. A quantidade de coisas acontecendo no pré conferência e a quantidade de agendas para os três dias de trabalho refletiu no número de participantes: houveram muitas pessoas inscritas e a logística das plenárias dificultaram o acesso de muitas delas.  

Em sua comunicação oficial, as Nações Unidas enfatizaram que mais de mil e trezentas propostas de eventos paralelos foram recebidas e algo próximo de quinhentas foram aprovadas para acontecer. Essa demanda reflete uma urgência para que encontros como este sejam mais frequentes, acessibilizando que mais pessoas colaborem, garantindo representação geográfica nos encontros.

Sendo assim, embora a conferência represente um espaço importante para que o diálogo sobre água e saneamento seja traduzido em larga escala para os locais de origem das sete mil pessoas presentes, será difícil identificar os resultados sólidos deste encontro. Em partes, isso se dá porque não há uma constituinte/convenção que segure o tema como a UNFCCC o faz com as COPs de clima, por exemplo. Um outro ponto que chama atenção foi como “Water Justice” e “Water Security”, justiça da água e segurança hídrica respectivamente, foram expressões muito faladas pelos corredores e em muitas plenárias ao mesmo tempo, e sempre atreladas à discussões sobre como atribuir novas formas de dar valor financeiro à água.

Como avaliar esses três dias de trabalho?

Se pensarmos nas ações dos países, que apresentaram compromissos voluntários, falta muito para consolidar uma agenda que siga com força total. António Guterres, secretário-geral da ONU falou na plenária de encerramento que o mundo precisa encontrar um novo rumo para gerir e conservar água. Em paralelo, o mais recente relatório-síntese do IPCC é enfático ao dizer que a humanidade já tem as tecnologias e recursos para reduzir drasticamente as emissões, o que seria fundamental para proteger os recursos hídricos. O que falta? Ação política.

Falta também um espaço mais plural e participativo - embora contasse com muita gente, muitas vozes ficaram de fora da conferência. A presença de muitos jovens, especialmente do sul global, foi impossibilitada seja pela falta de recursos, pela logística complexa ou pela negativa de vistos. Isso é algo que precisa mudar em espaços como este. Nos vinte anos que atua, a Waterlution atestou o potencial e poder de ação de jovens que se norteiam na água para fazer mudanças. Em micro e macro escala, muitos jovens líderes da água que passaram pelos programas globais da Waterlution estão não só em posições de liderança ao redor do mundo como fomentam em suas comunidades o pensamento orientado para a resolução de problemas complexos e na interdisciplinaridade das coisas.

Para pluralizar este espaço, quando quer que ele aconteça de novo (e torcemos para que ele não demore mais quase 50 anos para chegar), a inclusão não é suficiente. Mecanismos que garantam a participação de pessoas na linha de frente das questões de água e clima são fundamentais. Waterlution tem expandido sua rede na África subsaariana e América Latina, e viu muitas organizações destas regiões terem eventos aceitos mas não chegaram na conferência por falta de espaço para sediá-los e apoio logístico.  

Se nas COPs de Clima o grande assunto acaba sendo o financiamento climático, é possível dizer que nesta conferência o tema é tão urgente quanto. A Agenda de ação pela água é um mecanismo impressionante, especialmente pela quantidade de compromissos firmados/sugeridos. Entretanto, para que eles aconteçam de fato, é importante um trabalho coeso que associe mais reuniões como esta com métricas direcionadas de como se vai investir em soluções para água. Aqui, mais uma vez, a responsabilidade histórica de países do norte global precisa ser cobrada para que investimentos contínuos e tangíveis aconteçam para a mudança sistemática que garantirá acesso à água e saneamento e adaptação climática.

E é aí que está o elemento fundamental para solidificar a ação para a água.

De forma efetiva, a Waterlution esteve presente com 4 membros da equipe global, apresentou um side event “O poder da inovação colaborativa para segurança hídrica, pavimentando o caminho da adaptação climática: aprendizados de parcerias focadas em juventudes focados em diversidade e equidade de gênero”. Participamos enquanto painelistas em dois eventos de parceiros, “Facilitando o acesso do conhecimento sobre a água” e “New Pathways to bridge SDG 6 and SDG 14”. Um privilégio participar deste momento histórico para ação global, compartilhando conhecimento com parceiros do mundo todo focando em água e clima.

Pensar em formas de gestão e governança da água deve colocar em perspectiva o momento atual do planeta para com este recurso - a conferência deixou claro que não há mais tempo para ignorar a transversalidade em concretizar ações de manejo, proteção e distribuição da água. É necessário atravessar nessas diretrizes questões de saúde, ecossistemas, biodiversidade, conhecimento tradicional, urbanização, gênero, características sociais e econômicas.  

Reconhecer que água é direito humano fundamental é importante, mas não é suficiente. É preciso tratar água como o que ela realmente é: gente.